Conduzir nessas bicicletinhas que zunem no Guarujá dos anos 1970 na volúpia das grandes revelações que acontecem quando a gente tem 10 anos ou quase isso; para quem se fascinar, como eu, pela narrativa de tirar o fôlego, pelos diálogos absolutamente indispensáveis, por imaginar o tanto de horas implícitas para fazer cada página voar como ventania e ao mesmo tempo deixar marcado o sabor de cada palavra (mais ou menos como o cara que leva dias e dias para montar todo um colosso de pedras de dominó para ver tudo desabar numa onda de poucos segundos; mas a analogia se esgota aí, porque as palavras têm um alcance, uma trajetória e uma aderência sutil incomparavelmente maior); para quem, enfim, não se sentir saciado ao fechar a última página e perceber, ao contrário, ter descoberto uma nova sede específica. Exagero? Leia as primeiras páginas e diga se não sente na cara essa ventania, esse sabor, essa sede. Sendo assim, às boas notícias: 1) essa ventania, esse sabor, essas surpresas, essas bicicletas, essa fluência, já estavam presentes em O mundo acabou em 1973, primeiro livro que Guilherme publicou, em 2008, e que você pode encontrar por aí; 2) isso tudo (ou mais) está também em AsteroideAmor, também publicado agora pela 7Letras. Mais não digo, porque não sou narrador onisciente. Sou apenas testemunha privilegiada da construção dessas três narrativas, como fui de várias do meu pai, João Carlos Marinho, de quem Guilherme é um dos melhores leitores que conheço.